Unidade Especial

Museu de Biodiversidade do Cerrado

por Portal IB
Publicado: 27/05/2019 - 10:12
Última modificação: 03/07/2019 - 15:40

O Museu de Biodiversidade do Cerrado (MBC) foi criado em 2000 como um órgão complementar de ensino, pesquisa e extensão do Instituto de Biologia da Universidade Federal de Uberlândia, incorporando em seu acervo as coleções científicas zoológicas, além de uma coleção didático-expositiva de espécimes animais (fixados, taxidermizados e esqueletos) ocorrentes naquele bioma, aberta permanente e gratuitamente ao público. O acervo expositivo permanente do MBC foi constituído para a divulgação dos conhecimentos técnico-científicos sobre a fauna e ecologia do cerrado, e para a conscientização da população sobre a necessidade da preservação deste ecossistema, sendo o único museu brasileiro dedicado especialmente a este bioma. Fornece também suporte para a prática de diversas atividades de extensão anteriormente inexistentes no Instituto de Biologia, tais como visitas monitoradas de escolas da rede pública e particular do ensino fundamental, médio e superior (recebendo cerca 2000 alunos de escolas públicas por ano) e a capacitação de professores da rede municipal de ensino (cerca de 80 professores por ano), além de exposições temporárias. Estas atividades concretizaram-se graças a um convênio celebrado com a Prefeitura Municipal de Uberlândia, por meio da cessão de um prédio para abrigar a exposição do MCB, localizado em um importante parque municipal (Parque Municipal Victorio Siquierolli). 

A facilidade disponibilizada por tal convênio, no entanto, não contemplou as necessidades de adequado repositório e equipagem das coleções científicas zoológicas da UFU, que se mantiveram dispersas em diversos laboratórios e instalações do Instituto de Biologia da UFU. Assim, apesar de incorporadas ao Museu de Biodiversidade do Cerrado para fins de curadoria, as coleções científicas não dispuseram na época, por falta de recursos e espaço físico, de tratamento compatível com sua relevância. Em 2011, a inauguração do Bloco 4QJU no campus Umuarama mudou consideravelmente este cenário. Dedicado às coleções científicas zoológicas e botânicas, esta nova instalação permitiu que novos espaços destinados às Coleções e melhor acomodação dos pesquisadores, colaboradores, técnicos e alunos envolvidos.

As Coleções Científicas Zoológicas da UFU estão organizadas em Sub-coleções, adequando-se assim às especificidades de manutenção de espécimes de grupos taxonômicos e constituição corporal distintos, demandas de espaço físico para acomodação e facilidade de catalogação. A maior parte de seu registro (tombo) encontra-se informatizado, porém este acervo ainda não está disponível on-line. Ao longo dos anos cada pesquisador desenvolveu seu próprio sistema de tombamento e de modo que apenas recentemente, com a formalização do Museu de Biodiversidade do Cerrado como órgão complementar do Instituto de Biologia – UFU, e a institucionalização de seu Conselho Curador, deu-se a padronização deste acervo em uma única Coleção com suas sub-coleções. Assim, atualmente este acervo está sendo catalogado sob novo sistema, o qual se utiliza do acrônimo "MBC", seguido de numeração sequencial e indicação da respectiva sub-coleção (exs.: MBC-01-Pv: espécime de número 01 da seção de Paleovertebrados da Sub-coleção Paleontológica; MBC-01-An: espécime número 01 da seção de anuros da Sub-coleção Herpetológica). Sob esta lógica, a coleção está sendo adequada a um sistema de gerenciamento de coleções e será futuramente disponibilizada a público através da implantação de um website dedicado. O registro de imagens digitais do acervo, que acompanharão cada entrada no sistema de gerenciamento está sendo atualmente acumulado para posterior divulgação.

As atuais Sub-coleções Científicas são a Coleção Mirmecológica, Coleção de Apoidea, Coleção Aracnológica, Coleção Ictiológica, Coleção Herpetológica, Coleção Mastozoológica e Coleção Paleontológica. Além do Curador Geral, Dr. Douglas Riff, cada Sub-coleção é zelada também por um curador específico. Considerando-se todas as sub-coleções abaixo descritas, o acervo atualmente tombado no Museu de Biodiversidade do Cerrado é de cerca de 30.000 espécimes. 

A COLEÇÃO MIRMECOLÓGICA tem como curador o Dr. Heraldo L. Vasconcelos (Pesquisador 1A do CNPq), e nela estão depositados exemplares de mais de 900 espécies de formigas – incluindo espécies ainda não descritas - de várias regiões brasileiras, especialmente do Cerrado e da Amazônia. Estão representados nesta coleção 71 diferentes gêneros, incluindo gêneros raros ou pouco conhecidos para a ciência tais como Cerapachys, Mycetagroicus e Xenomyrmex. Nesta coleção estão depositados os testemunhos (vouchers) de trabalhos sobre a biologia, ecologia e conservação de Formicidae desenvolvidos pelo laboratório de Ecologia de Insetos Sociais da UFU.

A COLEÇÃO ARACNOLÓGICA atualmente é composta por cerca de 4.500 exemplares de Araneomorphae coletados em áreas de Mata Atlântica, Cerrado e Campo Rupestre do sudeste brasileiro. As principais famílias representadas são Araneidae, Theridiidae, Tetragnathidae, Nephilidae, Mimetidae, Theridiosomatidae, Thomisidae e Salticidae. Seu curador é o Dr. Marcelo O. Gonzaga. Entre o material depositado na coleção estão vários espécimes testemunho de trabalhos científicos já publicados, além de material ainda em fase de análise para publicação. Entre esses se encontra um grande número de aranhas coletadas em ninhos de vespas das famílias Crabronidae e Pompilidae e atacadas por parasitóides da família Ichneumonidae. Além disso, a coleção conta ainda com várias colônias completas de espécies sociais e subsociais da família Theridiidae (gêneros Anelosimus, Chrysso, Helvibis) que também estão sendo analisadas para publicação. A coleção de Araneae receberá a maior parte do material coletado no projeto intitulado "Diversidade de himenópteros predadores e parasitóides de aranhas e suas interações", que é parte integrante da proposta de trabalho do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia dos Himenópteros Parasitóides da Região Sudeste Brasileira (INCT – HYMPAR SUDESTE). Inclui ainda o material coletado nas amostragens das áreas de preservação ambiental do município de Uberaba (campos de murundus) e todo material proveniente de trabalhos futuros a serem realizados pela equipe do laboratório de ecologia comportamental de aranhas. Uma seleção da produção derivada desta coleção inclui:

A COLEÇÃO DE APOIDEA está acondicionada no Laboratório de Ecologia e Comportamento de abelhas (LECA) do Instituto de Biologia da Universidade Federal de Uberlândia (INBIO-UFU), coordenado pelas Dra. Solange Cristina Augusto (Pesquisadora II do CNPq) e Dra. Fernanda Helena Nogueira-Ferrreira. Única na região, a coleção conta com indivíduos procedentes de diversas áreas de Cerrado do Triângulo Mineiro, Goiás e São Paulo.  Seu acervo inclui cerca de 10.000 espécimes dos táxons Euglossini, Bombini, Centridini, Ceratinini, Emphorini, Ericrocidini, Eucerini, Exomalopsini, Tapinostapidini, Tetrapedini e Xylocopini e Meliponini, destacando-se deste último os gêneros Tetragona, Tetragonisca, Scaptotrigona, Leurotrigona, Frieseomelitta, Scaura, Partamona, Trigona, Lestrimellita e Melipona. Destaca-se também uma relevante coleção de ninhos de abelhas sem ferrão. A coleção de abelhas do LECA serve como depósito de representantes da diversidade de abelhas da região do Triângulo Mineiro, fornecendo suporte para o desenvolvimento de vários projetos de pesquisa realizados na linha de ecologia de abelhas solitárias e sociais, onde estudos sobre o hábito de nidificação e de coleta alimentar de muitas espécies são efetuados e servindo como material de apoio à rotina de identificação para pesquisadores.

A COLEÇÃO HERPETOLÓGICA – SEÇÃO DE ANUROS TROPICAIS foi iniciada e organizada pelo Dr. Ariovaldo A. Giaretta (Pesquisador 1B do CNPq), e é particularmente relevante por abrigar espécimes da região do Triângulo Mineiro e Sul de Goiás, mas também conta com espécimes da Mata Atlântica mineira e paulista. Com cerca de 6500 espécimes, os principais grupos representados são: Dendrobatidae, Hylodidae, Centrolenidae, Odontophrynini, Leiuperidae, Leptodactylidae, Terrarana, Hylidae, Bufonidae e Microhylidae. A coleção abriga holótipos/parátipos das espécies descritas pela equipe e espécimes testemunho de gravações, de teses e dissertações e de mais de cem trabalhos publicados pela equipe do curador; abriga também girinos da anurofauna regional. Além dos espécimes testemunhos de levantamentos faunísticos, destaca-se a presença de exemplares-tipo de novas espécies recentemente descritas (tais como holótipo e parátipos das rãs Pseudopaludicola facureae Andrade e Carvalho, 2013 e Adenomera saci Andrade e Giaretta, 2013).

A COLEÇÃO HERPETOLÓGICA - SEÇÃO DE SQUAMATA (SERPENTES E LAGARTOS) é particularmente relevante, contando com cerca de 2.000 espécimes provenientes principalmente do Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba, e muitas provenientes da área prioritária de conservação de Nova Ponte (Drummond et al., 2005), contando com diversas formas raras, e é tida, juntamente com a coleção de Anuros Neotropicais, como uma importante coleção herpetológica de referência regional (Peixoto, 2003) e como referência nacional para alguns grupos, como serpentes do gênero Philodryas e diversas espécies de Amphisbaenia, Teiidae, Iguanidae e Scincidae. Esta coleção foi originalmente organizada e ampliada pelos esforços da Dra.Vera Lúcia de Campos Brites, tendo atualmente o Curador Geral, Dr. Douglas Riff, como colaborador para sua reorganização. Além dos exemplares fixados, esta coleção inclui também dezenas de ovos e hemipênis de diversos grupos.

A COLEÇÃO MASTOZOOLÓGICA conta com cerca de 400 espécimes de roedores e marsupiais provenientes de pesquisas conduzidas pelas Dras. Kátia Facure e Natália Oliveira Leiner, e testemunhos de mamíferos provenientes da pesquisa de aferição do impacto de estradas de rodagem nas populações regionais conduzida pela Dra. Ana Elizabeth Iannini Custódio (LEMA-UFU, Centro Brasileiro de Estudos em Ecologia de Estradas - UFLA), pela Dra. Natália Torres Mundim (LEMA-UFU, Jaguar Conservation Fund) e Dra. Natália O. Leiner (LEMA-UFU).

A COLEÇÃO ICTIOLÓGICA é, em sua maior parte, formada a partir de coletas em bacias hidrográficas da região do Triângulo Mineiro anteriores à construção de grandes represas da região, sendo assim importantes testemunhos do impacto que tais empreendimentos afligem à biodiversidade regional. Essa coleção conta com cerca de 800 espécimes de teleósteos de água doce coletados em diversos rios, riachos e represas do Triângulo Mineiro, testemunhando os seguintes grupos: Characiformes (famílias Characidae, Parodontidae, Curimatidae e Crenuchidae), Siluriformes (famílias Loricariidae, Trichomycteridae, Heptapteridae e Callichthyidae), Gymnotiformes (família Gymnotidae), Cyprinodontiformes (famílias Rivulidae e Poeciliidae) e Perciformes (família Cichlidae). Originalmente formada a partir dos levantamentos faunísticos realizados pelo Dr. José Fernando Pinese (professor aposentado pelo INBIO), esta sub-coleção está atualmente sendo re-catalogada através de projetos envolvendo estudantes de graduação bolsistas coordenados pela curadoria geral das Coleções Científicas do INBIO (Dr. Douglas Riff, como curador geral), com colaboração de ictiólogos parceiros.

A COLEÇÃO PALEONTOLÓGICA foi iniciada a partir de prospecções paleontológicas realizadas através do projeto "Sistemática e Biogeografia dos Crocodylomorpha Sul-Americanos com Ênfase nas Faunas Cretácicas e Terciárias" (FAPEMIG APQ-00581-09), ampliada através das ações de coleta empreendidas pelo projeto "O Cretáceo do Estado de Minas Gerais: Projeto Integrado de Prospecção, Pesquisa e Extensão" (CNPq 401843/2010-6) e atualmente através do projeto "Resgate, preparação e descrição de um novo dinossauro proveniente do Cretáceo Superior de Campina Verde (MG), e faunas associadas" (FAPEMIG APQ-02490-12), coordenados pelo Curador Geral e encarregados da Sub-coleção Paleontológica, Prof. Dr. Douglas Riff. Esta sub-coleção, em sua seção de Paleovertebrados, conta atualmente com vertebrados fósseis cretácicos provenientes de localidades da Bacia Bauru no Triângulo Mineiro (Prata, Campina Verde, Uberaba e Gurinhatã), incluindo material osteológico, dentário e de mastodontes, preguiças, dinossauros, crocodiliformes, tartarugas, anuros e peixes. Acrescentam-se espécimes tombados como holótipos de novas espécies ainda em fase de estudo. Conjuga-se com as seções de Paleobotânica, Paleoinvertebrados e Paleoicnologia, de modo que a sub-coleção paleontológica dispõe de cerca de 500 espécimes de depósitos brasileiros do Proterozóico (Grupo Corumbá), Triássico (Bacia do Paraná), Cretáceo (da bacias do Araripe, Almada, São Luís e Bauru), Mioceno (Formação Solimões) e Pleistoceno (tanques do estado da Bahia e aluviões do Triãngulo Mineiro), e de depósitos cretácicos e cenozoicos da Antártica. 

Em resumo, as coleções zoológicas do Instituto de Biologia-UFU materializam a soma de esforços de diversos grupos institucionais de pesquisa dedicados à investigação acerca da biologia, evolução e conservação animal, com ênfase nos ecossistemas atuais (especialmente aqueles inseridos nos biomas Cerrado e Mata Atlântica) e também pretéritos do Brasil, e representa um exemplo institucional de racionalização de recursos e espaço físico de usos comum. As linhas de pesquisa ativas são dedicadas ao estudo da taxonomia, sistemática, ecologia e conservação dos diversos grupos acima listados. As atividades de coleta e intercâmbio de espécimes inerentes a estas linhas de pesquisas levaram à formação de coleções científicas que urgem ser adequadamente dispostas e armazenadas de modo a otimizar seu uso acadêmico, garantir sua permanência e também sua expansão. 

Curador das Coleções científicas do MBC: Prof. Dr. Douglas Santos Riff